domingo, 30 de junho de 2019

TJ10 - JOSÉ RONALD BERTAGNOLLI (4)


JOSÉ RONALD BERTAGNOLI (reedição)


Gaurama-RS, 17 de março de 1948!
Nasce José Ronald Bertagnoli, o segundo filho do casal Pedro e Nelly Alzira Hartman Bertagnolli.
 Antes dele, nascera Elaine, depois Eliane, Paulo, Lúcia e Beto.

Ronald, como era por todos conhecido, nasceu guerreiro. Já aos dois anos de idade parecia querer participar das lides campesinas e, entre os oito e os dez, se “atirou” na área administrativa. Com competência!

No planalto médio riograndense, norte gaúcho, perto de Coxilha em Butiá Grande, inicia a história da Cabanha Butiá, com a chegada do patriarca da família em 1950: o comerciante Pedro Bertagnolli, atraído por um programa federal de incentivos à triticultura, lançou-se de corpo e alma à agricultura. Morador em Gaurama ia diàriamente de trem para Coxilha, completando percurso de 18 km a pé até chegar à propriedade que passara a explorar com os sócios Amandio Sperb e João Bonilla, onde resolveram plantar trigo.


A primeira lavoura, de 400 ha sem qualquer infra-estrutura e conhecimento limitado, obteve resultado compensador. Na segunda safra a plantação ocupava área aproximada de 500 ha, agora estruturada para o bom andamento do cultivo, os trigais prometendo lucros e uma vida melhor. A boa colheita aumentou os sonhos de grandes ganhos: a terra estava correspondendo!

As boas sabras de 1951 e 1952, com a variedade Fontana, fizeram este pioneiro no cultivo extensivo do trigo e na sua mecanização no sul do país adquirir sua primeira fêmea Jersey – de nome “Boneca”- visando o fornecimento de leite aos seus trabalhadores. O gosto e o apego pela raça foi crescendo e Pedro adquiriu vacas puras, já pensando na diversificação “em pequena escala”. Por volta de 1952, sempre que Pedro viajava Ronald adoecia e, por aconselhamento médico “para não perder o filho”, foram morar na fazenda situada entre os rios Passo Fundo e Caraguá.

Na soja nos anos 60, e na agricultura diversificada em 80 com a produção selecionada de sementes de trigo e de soja, na seleção e melhoramento de bovinos Jersey, eqüinos Crioulo, e ovinos Suffolk, está o sucesso agropecuário dos Bertagnolli, e de José Ronald em especial. 

Aos dez anos de idade, em 1958, dito por seu pai, o jovem Ronald já administrava parte da fazenda. Estudando na escola montada para os filhos dos funcionários na Fazenda Butiá, depois foi para a Escola Conceição, em Passo Fundo. Sua precoce ajuda a Pedro foi fundamental para tornarem-se uma referência nacional na agropecuária, também o milho cultivado em larga escala.


Observando, desde o início, possuir a vaca Jersey qualidades valorizando-a perante a pecuária e indústria leiteira, Ronald acompanhou, desde 1962, o trabalho paterno nas antigas e “quentes” exposições no Parque do Menino Deus, na capital gaúcha, “tomando gosto pela coisa”. Antes de criador de Jersey Pedro Bertagnolli era suinocultor, expondo por diversas vezes no antigo Menino Deus (Porto Alegre). O nome de “Butiá” foi escolhido face à grande quantidade de butiazeiros existentes na Coxilha. Em 2 de janeiro de 1960, Pedro Bertagnolli foi aceito  como sócio da  Associação de Criadores de Gado Jersey do RS, tornando-se seu diretor regional em duas gestões. Em 1962, no Menino Deus expôs 1 jersey, nos três anos seguintes 2 em cada evento.


A primeira importação da Ilha de Jersey, um touro e duas novilhas, foi em 1964. Quatro anos após repetiram a operação. O verdadeiro melhoramento genético da Jersey iniciou em 1968, numa época em que ainda não era utilizada a inseminação artificial na propriedade, com a importação do touro CLEMEND CONCORD, da Ilha de Jersey, juntamente com duas fêmeas do criatório de H.W.Mailard & Son.

Clemend Concord entrava “com muito trato, bonito” nas exposições do Menino Deus, mas sempre perdendo no julgamento. Ronald perguntou para um juiz o que havia, porque não vencia, obtendo a resposta de que “o touro estava excessivamente gordo”. A partir dessa conversa, Clement Concord venceu duas estaduais seguidas, e o jovem abnegado passou a estudar profundamente a raça Jersey.

Em 1969 outros animais vieram da Ilha, inclusive o importante touro BROADFIELDS VEDAS HIGH MOON (filho de Broadfields Vedas Star Lad, neto materno de Supreme Vedas Design – seis vezes campeã de produção de leite e teor de gordura, por isso apelidada de “Rainha da Ilha”). No Menino Deus, em nome de Pedro Bertagnolli foram inscritos 7 jersey, obtendo o Reservado de Grande Campeonato com o touro Don Rufino Concord do Butiá.

No ano de 1971, “seu” Pedro apresentou 6 jersey em Esteio. Na 1ª EXPOINTER, 1972, em nome de Ronald Bertagnolli foram inscritos 13 animais, obtendo os títulos de Grande Campeão com Broadfields Vedas High Moon (imp.), e o de Reservado de Grande Campeã com Laranja Estrêla do Butiá. No ano seguinte, Ronald inscreve 11 “Butiás”.

Em 1974 uma importação de matrizes da Inglaterra foi realizada, vindo um touro e três fêmeas. Em Esteio, causando uma grande surpresa à assistência, o inglês Tom H.Bradley adjudicou o título de grande campeã Jersey a uma terneira, Nandi Vedas do Butiá, tendo a cabanha ainda conquistado o reservado de vaca jovem, o campeonato terneira menor, o reservado touro dois anos, o campeonato touro sênior e o grande campeonato para machos com Broadfields Vedas High Moon (bi-campeão), adquirido de F.A.Anthoine. A Butiá inscrevera 17 jersey. 


1979 foi o ano da estréia da Butiá como “Cabanha Leiteira do Ano” em Esteio, na 42ª Exposição Estadual de Animais, Ronald comentando: “é a primeira vez que um expositor da raça Jersey obtém esse prêmio, até o momento sempre na mão dos criadores da raça Holandesa”. O troféu foi entregue pela sra.Nilza Caldas Garcia.

Em Esteio expondo 29 jersey, ano de 1985, não lhe fugiu o grande campeonato com vaca de criação do dr.Ney Maahs Ferreira (talvez o maior conhecedor de linhagens da raça Jersey de todos os tempos), 3V Astrid Surville Torono. José Ronald foi o Diretor Regional da ACGJRS em Passo Fundo, mandato de 1985/86.


Importações do Canadá e dos EUA (1986), e da Nova Zelândia (1992), foram investimentos que ajudaram na qualificação de seu rebanho detentor, até 2004 na Expointer/RS, de 21 Grande Campeonatos Fêmeas, 24 títulos de Melhor Criador, e diversas Cabanha do Ano em Bovinos Leiteiros, ainda marcando recordes de produção nos concursos leiteiros. 



Em sete participações na Exposição Nacional da Raça Jersey em São Paulo (parques de Água Branca e de Água Funda), obteve o prêmio de Melhor Criador, alem dos Grandes Campeonatos e Campeonatos de categorias, só deixando de lá comparecer quando, conforme declarou ao autor deste blog, julgou-se injustiçado por alterações indevidas no regulamento de exposições, em sua última participação ainda obtendo os principais títulos na Água Funda-SP.


Honestidade técnica nunca lhe faltou, externando a todos seus problemas ligados à agropecuária, sempre procurando a causa, e achando a solução. Para seu irmão Beto, e para os filhos, que o acompanhavam, Ronald não escondia o que sabia, orientando-lhes com segurança e simplicidade.

Segundo irmão em uma família de seis filhos, Ronald teve ligação forte com a terra e o que fosse relacionado ao campo. Aliando a formação acadêmica em Administração e em Agronomia, com a experiência do dia-a-dia tornou-se uma autoridade, sendo jurado em dezenas de concursos de animais no Brasil, na Inglaterra, no Canadá, na Nova Zelândia, na Argentina, e no Uruguai. Da Associação de Criadores de Gado Jersey do Rio Grande do Sul foi vice-presidente em duas gestões, tendo recusado a indicação para concorrer à presidência “por ficar a sede muito longe de sua região de atuação”.


Católico, seu precoce sepultamento ocorreu no dia 25 de dezembro de 2004, no cemitério particular da própria cabanha onde jaz seu pai Pedro, “o patriarca”, falecido em 2001, a quem tanto admirava.


O rebanho atual da raça Jersey, composto por mais de 100 vacas PO em ordenha alimentadas a pasto, tem média anual acima de 4700 kg de leite/animal. Feno, silagem, pasto nativo melhorado, pastagens artificiais, ainda sem irrigação, e concentrado, são a base de sua alimentação. Caroline Bertagnolli, filha de Ronald e veterinária por formação, hoje conduz um dos mais importantes patrimônios genéticos da Jersey no Brasil. Após cinco anos ausente nas exposições especializadas, voltou a competir conquistando o Grande Campeonato e o seu Reservado em Itajubá-MG, na primeira mostra do Circuito Nacional da Raça Jersey. Em Esteio, após 2009, não mais foram expostAs as JERSEY BUTIÁ.


De seu grande amigo Mauro Roos Eichler, jersista parceiro de longas jornadas, Ronald mereceu o seguinte texto especial para o livro “RONALD, O JERSISTA”, escrito pelo autor deste blog.

“SAUDADES DE RONALD BERTAGNOLLI


Recordar José Ronald Bertagnolli é como olhar para uma harmoniosa fazenda modelo, repleta de pastagens de trevo com azévem, coxilhas de trigo e cevada a balançar suas espigas pelo vento, aos grãos colhidos na safra anterior rigorosamente empilhado num armazém tecnologicamente construído. A visão de cercas alambradas a perder de vista, rodeadas de estradas corretamente construídas. Vislumbrar as lindas vacas Jersey pastejando em piquetes do tipo Voisin não têm como não recordar, os detalhes fazem a diferença.


Assim foi Ronald: pioneiro em tecnologia de ponta na agricultura e pecuária. Com cultivos de inverno, verão e forrageiras que naquela época pouco acreditava serem produtivas. A pecuária tecnicamente perfeita com a criação de produtivas vacas Jersey, seus cavalos da raça crioula, e o criatório de ovinos Sullfok. Seus conhecimentos estratégicos eram diversificar ao máximo a propriedade para poder enfrentar os desafios da natureza e do homem.

Em todos os lugares deste Brasil é fácil relembrar dele. É só observar os detalhes acima mencionados e logo vem a colocação: apreendi com o alemão Ronald na Cabanha Butiá.

Ele tinha a característica do empreendedorismo em sua mente, pioneirismo amplo nos negócios, com responsabilidade e sem medo de errar. Quando em 1971, freqüentávamos a Universidade, Ronald era daqueles alunos que já sabia o que o professor ensinava.  Ele tinha um grande mestre atrás de sua vida, o pai seu Pedro. Outro incansável agropecuarista.

Nem geadas, granizos, vendavais ou políticas governamentais erradas o dobravam. Sempre tinha alternativas e saídas.

Ronald era conhecido como Mr. Bertagnolli no Canadá, onde foi jurado e deixou recordações e amigos.

Do Estado de Wyoming ao Texas, do Uruguai passando pela Argentina ao Chile e na Nova Zelândia ele será lembrado pelo seu profissionalismo em seus ensinamentos e a honestidade nos negócios.

Numa tarde na província de Quebec, juntos estávamos adquirindo algumas matrizes Jersey, ele tinha em mente adquirir 12 fêmeas e disse-me: Sabes de uma coisa, eu vou comprar mais, quero 50 vacas com prenhes positiva, só assim atingirei meu objetivo de produção leiteira mais rapidamente e terei as crias já com todo o melhoramento genético embutido, tudo isto no inicio da década dos anos 80.  Mas e o dinheiro para pagar? Vou conseguir financiamento junto aos bancos. Seu Pedro ficou sem cabelos, alias já estava.

Assim era ele, arrojado e acreditava naquilo que fazia em parceria com seu pai.

Quantos ministros, governadores, representantes das associações e entidades deste Brasil consultaram-no. A sabedoria em atrair centenas de agricultores para o inúmero dia de campo. Ele competia em exposições não só para ser um campeão, ele queria que todos olhassem o que tinha por trás de um grande campeão.


José Ronald Bertaganolli partiu precocemente, mas sua marca ficou. E por gerações permanecerá, mostrando a todos como se produz corretamente alimentos para este País.”



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