JOSÉ RONALD BERTAGNOLI (reedição)
Gaurama-RS,
17 de março de 1948!
Nasce
José Ronald Bertagnoli, o segundo filho do casal Pedro e Nelly Alzira Hartman
Bertagnolli.
Antes
dele, nascera Elaine, depois Eliane, Paulo, Lúcia e Beto.
Ronald,
como era por todos conhecido, nasceu guerreiro. Já aos dois anos de idade
parecia querer participar das lides campesinas e, entre os oito e os dez, se
“atirou” na área administrativa. Com competência!
No
planalto médio riograndense, norte gaúcho, perto de Coxilha em Butiá Grande,
inicia a história da Cabanha Butiá, com a chegada do patriarca da família em
1950: o comerciante Pedro Bertagnolli, atraído por um programa federal de
incentivos à triticultura, lançou-se de corpo e alma à agricultura. Morador em
Gaurama ia diàriamente de trem para Coxilha, completando percurso de 18
km a pé até chegar à propriedade que passara a explorar com os sócios
Amandio Sperb e João Bonilla, onde resolveram plantar trigo.
A primeira lavoura, de 400 ha sem qualquer infra-estrutura e conhecimento limitado, obteve
resultado compensador. Na segunda safra a plantação ocupava área aproximada
de 500 ha, agora
estruturada para o bom andamento do cultivo, os trigais prometendo lucros e uma
vida melhor. A boa colheita aumentou os sonhos de grandes ganhos: a terra
estava correspondendo!
As boas
sabras de 1951 e 1952, com a variedade Fontana, fizeram este pioneiro no
cultivo extensivo do trigo e na sua mecanização no sul do país adquirir sua primeira
fêmea Jersey – de nome “Boneca”- visando o fornecimento de leite aos seus
trabalhadores. O gosto e o apego pela raça foi crescendo e Pedro adquiriu vacas
puras, já pensando na diversificação “em pequena escala”. Por volta de 1952,
sempre que Pedro viajava Ronald adoecia e, por aconselhamento médico “para não
perder o filho”, foram morar na fazenda situada entre os rios Passo Fundo e
Caraguá.
Na soja
nos anos 60, e na agricultura diversificada em 80 com a produção selecionada de
sementes de trigo e de soja, na seleção e melhoramento de bovinos Jersey,
eqüinos Crioulo, e ovinos Suffolk, está o sucesso agropecuário dos Bertagnolli,
e de José Ronald em especial.
Aos dez
anos de idade, em 1958, dito por seu pai, o jovem Ronald já administrava parte
da fazenda. Estudando na escola montada para os filhos dos funcionários na
Fazenda Butiá, depois foi para a Escola Conceição, em Passo Fundo. Sua precoce
ajuda a Pedro foi fundamental para tornarem-se uma referência nacional na
agropecuária, também o milho cultivado em larga escala.
Observando,
desde o início, possuir a vaca Jersey qualidades valorizando-a perante a
pecuária e indústria leiteira, Ronald acompanhou, desde 1962, o trabalho
paterno nas antigas e “quentes” exposições no Parque do Menino Deus, na capital
gaúcha, “tomando gosto pela coisa”. Antes de criador de Jersey Pedro
Bertagnolli era suinocultor, expondo por diversas vezes no antigo Menino Deus
(Porto Alegre). O nome de “Butiá” foi escolhido face à grande quantidade de
butiazeiros existentes na Coxilha. Em 2 de janeiro de 1960, Pedro Bertagnolli
foi aceito como sócio da Associação de Criadores de Gado Jersey do
RS, tornando-se seu diretor regional em duas gestões. Em 1962, no Menino Deus
expôs 1 jersey, nos três anos seguintes 2 em cada evento.
A
primeira importação da Ilha de Jersey, um touro e duas novilhas, foi em 1964.
Quatro anos após repetiram a operação. O verdadeiro melhoramento genético da
Jersey iniciou em 1968, numa época em que ainda não era utilizada a inseminação
artificial na propriedade, com a importação do touro CLEMEND CONCORD, da Ilha
de Jersey, juntamente com duas fêmeas do criatório de H.W.Mailard & Son.
Clemend
Concord entrava “com muito trato, bonito” nas exposições do Menino Deus, mas
sempre perdendo no julgamento. Ronald perguntou para um juiz o que havia,
porque não vencia, obtendo a resposta de que “o touro estava excessivamente
gordo”. A partir dessa conversa, Clement Concord venceu duas estaduais
seguidas, e o jovem abnegado passou a estudar profundamente a raça Jersey.
Em 1969
outros animais vieram da Ilha, inclusive o importante touro BROADFIELDS VEDAS
HIGH MOON (filho de Broadfields Vedas Star Lad, neto materno de Supreme Vedas
Design – seis vezes campeã de produção de leite e teor de gordura, por isso
apelidada de “Rainha da Ilha”). No Menino Deus, em nome de Pedro Bertagnolli
foram inscritos 7 jersey, obtendo o Reservado de Grande Campeonato com o touro
Don Rufino Concord do Butiá.
No ano
de 1971, “seu” Pedro apresentou 6 jersey em Esteio. Na 1ª EXPOINTER, 1972, em
nome de Ronald Bertagnolli foram inscritos 13 animais, obtendo os títulos de
Grande Campeão com Broadfields Vedas High Moon (imp.), e o de Reservado de
Grande Campeã com Laranja Estrêla do Butiá. No ano seguinte, Ronald inscreve 11
“Butiás”.
Em 1974
uma importação de matrizes da Inglaterra foi realizada, vindo um touro e três
fêmeas. Em Esteio, causando uma grande surpresa à assistência, o inglês Tom
H.Bradley adjudicou o título de grande campeã Jersey a uma terneira, Nandi
Vedas do Butiá, tendo a cabanha ainda conquistado o reservado de vaca jovem, o
campeonato terneira menor, o reservado touro dois anos, o campeonato touro
sênior e o grande campeonato para machos com Broadfields Vedas High Moon
(bi-campeão), adquirido de F.A.Anthoine. A Butiá inscrevera 17 jersey.
1979 foi o ano da estréia da Butiá como “Cabanha Leiteira do Ano”
em Esteio, na 42ª Exposição Estadual de Animais, Ronald comentando: “é a
primeira vez que um expositor da raça Jersey obtém esse prêmio, até o momento
sempre na mão dos criadores da raça Holandesa”. O troféu foi
entregue pela sra.Nilza Caldas Garcia.
Em
Esteio expondo 29 jersey, ano de 1985, não lhe fugiu o grande campeonato com
vaca de criação do dr.Ney Maahs Ferreira (talvez o maior conhecedor de
linhagens da raça Jersey de todos os tempos), 3V Astrid Surville Torono. José
Ronald foi o Diretor Regional da ACGJRS em Passo Fundo, mandato de 1985/86.
Importações
do Canadá e dos EUA (1986), e da Nova Zelândia (1992), foram investimentos que
ajudaram na qualificação de seu rebanho detentor, até 2004 na Expointer/RS, de 21
Grande Campeonatos Fêmeas, 24 títulos de Melhor Criador, e diversas Cabanha do
Ano em Bovinos Leiteiros, ainda marcando recordes de produção nos
concursos leiteiros.

Em sete participações na Exposição Nacional da Raça Jersey em São Paulo (parques de Água Branca e de Água Funda), obteve o prêmio de Melhor Criador, alem dos Grandes Campeonatos e Campeonatos de categorias, só deixando de lá comparecer quando, conforme declarou ao autor deste blog, julgou-se injustiçado por alterações indevidas no regulamento de exposições, em sua última participação ainda obtendo os principais títulos na Água Funda-SP.

Em sete participações na Exposição Nacional da Raça Jersey em São Paulo (parques de Água Branca e de Água Funda), obteve o prêmio de Melhor Criador, alem dos Grandes Campeonatos e Campeonatos de categorias, só deixando de lá comparecer quando, conforme declarou ao autor deste blog, julgou-se injustiçado por alterações indevidas no regulamento de exposições, em sua última participação ainda obtendo os principais títulos na Água Funda-SP.
Honestidade
técnica nunca lhe faltou, externando a todos seus problemas ligados à
agropecuária, sempre procurando a causa, e achando a solução. Para seu irmão
Beto, e para os filhos, que o acompanhavam, Ronald não escondia o que sabia,
orientando-lhes com segurança e simplicidade.
Segundo
irmão em uma família de seis filhos, Ronald teve ligação forte com a terra e o
que fosse relacionado ao campo. Aliando a formação acadêmica em Administração e
em Agronomia, com a experiência do dia-a-dia tornou-se uma autoridade, sendo
jurado em dezenas de concursos de animais no Brasil, na Inglaterra, no Canadá,
na Nova Zelândia, na Argentina, e no Uruguai. Da Associação de Criadores de
Gado Jersey do Rio Grande do Sul foi vice-presidente em duas gestões, tendo
recusado a indicação para concorrer à presidência “por ficar a sede muito longe
de sua região de atuação”.
Católico,
seu precoce sepultamento ocorreu no dia 25 de dezembro de 2004, no cemitério
particular da própria cabanha onde jaz seu pai Pedro, “o patriarca”, falecido
em 2001, a quem tanto admirava.
O
rebanho atual da raça Jersey, composto por mais de 100 vacas PO em ordenha
alimentadas a pasto, tem média anual acima de 4700 kg de
leite/animal. Feno, silagem, pasto nativo melhorado, pastagens artificiais,
ainda sem irrigação, e concentrado, são a base de sua alimentação. Caroline
Bertagnolli, filha de Ronald e veterinária por formação, hoje conduz um dos
mais importantes patrimônios genéticos da Jersey no Brasil. Após cinco anos
ausente nas exposições especializadas, voltou a competir conquistando o Grande
Campeonato e o seu Reservado em Itajubá-MG, na primeira mostra do Circuito
Nacional da Raça Jersey. Em Esteio, após 2009, não mais foram expostAs as JERSEY BUTIÁ.
De seu
grande amigo Mauro Roos Eichler, jersista parceiro de longas jornadas, Ronald
mereceu o seguinte texto especial para o livro “RONALD, O JERSISTA”, escrito
pelo autor deste blog.
“SAUDADES
DE RONALD BERTAGNOLLI
Recordar
José Ronald Bertagnolli é como olhar para uma harmoniosa fazenda modelo,
repleta de pastagens de trevo com azévem, coxilhas de trigo e cevada a balançar
suas espigas pelo vento, aos grãos colhidos na safra anterior rigorosamente
empilhado num armazém tecnologicamente construído. A visão de cercas alambradas
a perder de vista, rodeadas de estradas corretamente construídas. Vislumbrar as
lindas vacas Jersey pastejando em piquetes do tipo Voisin não têm como não
recordar, os detalhes fazem a diferença.
Assim
foi Ronald: pioneiro em tecnologia de ponta na agricultura e pecuária. Com
cultivos de inverno, verão e forrageiras que naquela época pouco acreditava
serem produtivas. A pecuária tecnicamente perfeita com a criação de produtivas
vacas Jersey, seus cavalos da raça crioula, e o criatório de ovinos Sullfok.
Seus conhecimentos estratégicos eram diversificar ao máximo a propriedade para
poder enfrentar os desafios da natureza e do homem.
Em
todos os lugares deste Brasil é fácil relembrar dele. É só observar os detalhes
acima mencionados e logo vem a colocação: apreendi com o alemão Ronald na
Cabanha Butiá.
Ele
tinha a característica do empreendedorismo em sua mente, pioneirismo amplo nos
negócios, com responsabilidade e sem medo de errar. Quando em 1971,
freqüentávamos a Universidade, Ronald era daqueles alunos que já sabia o que o
professor ensinava. Ele tinha um grande mestre atrás de sua vida, o pai
seu Pedro. Outro incansável agropecuarista.
Nem
geadas, granizos, vendavais ou políticas governamentais erradas o dobravam.
Sempre tinha alternativas e saídas.
Ronald
era conhecido como Mr. Bertagnolli no Canadá, onde foi jurado e deixou
recordações e amigos.
Do
Estado de Wyoming ao Texas, do Uruguai passando pela Argentina ao Chile e na
Nova Zelândia ele será lembrado pelo seu profissionalismo em seus ensinamentos
e a honestidade nos negócios.
Numa
tarde na província de Quebec, juntos estávamos adquirindo algumas matrizes
Jersey, ele tinha em mente adquirir 12 fêmeas e disse-me: Sabes de uma coisa,
eu vou comprar mais, quero 50 vacas com prenhes positiva, só assim atingirei
meu objetivo de produção leiteira mais rapidamente e terei as crias já com todo
o melhoramento genético embutido, tudo isto no inicio da década dos anos
80. Mas e o dinheiro para pagar? Vou conseguir financiamento junto aos
bancos. Seu Pedro ficou sem cabelos, alias já estava.
Assim
era ele, arrojado e acreditava naquilo que fazia em parceria com seu pai.
Quantos
ministros, governadores, representantes das associações e entidades deste
Brasil consultaram-no. A sabedoria em atrair centenas de agricultores para o
inúmero dia de campo. Ele competia em exposições não só para ser um campeão,
ele queria que todos olhassem o que tinha por trás de um grande campeão.
José
Ronald Bertaganolli partiu precocemente, mas sua marca ficou. E por gerações
permanecerá, mostrando a todos como se produz corretamente alimentos para este
País.”




















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