ANTÔNIO CARLOS PINHEIRO
MACHADO (reedição)
da Granja Zuleika à Nova Querência
Antônio Carlos Pinheiro
Machado foi o último dos participantes da fundação da ACGJRS (Associação de
Criadores de Gado Jersey do RS, 1948,Pelotas/RS): falecido em 2017, aos 82
anos de idade, dedicou 74 deles a criação e fomento desta raça leiteira e
mantegueira. Alem de um grande conhecedor
da Jersey, foi um dos jurados mais destacados no Brasil e noutros
países.
Criador e melhorista por
excelência, era um hábil e incisivo leiloeiro que não se cansava de divulgar a
sua raça preferida, talvez o maior responsável por seu sucesso e expansão no
estado de São Paulo, e nos estados nortistas e nordestinos de nosso país, a partir da
década de 1960.
Até 2015, com todo o
conhecimento que soube transferir a seus filhos e netos, Pinheiro manteve a
direção de seu criatório, iniciado em Triunfo/RS e finalizado em Avaré/SP,
sempre acompanhado e apoiado por sua bela companheira e esposa, D.Liliana, e
por seus filhos Heitor, Júnior e Leonardo. Nas saudosas exposições no Menino
Deus (Porto Alegre/RS), nas Expointer (Esteio/RS), em Água Branca e Água Funda
(São Paulo/SP), em Avaré/SP, e nos leilões que tão bem soube organizar,
realizar, e manejar seu “martelo de ouro” com explicações técnicas ditas com
eloquência e sabedoria, os vibrantes “gritos e gestos” de Pinheiro Machado
& filhos marcaram uma época em que a alegria era o clima principal nos
eventos jersistas, mesmo naqueles com acaloradas discussões.
Nosso mestre e companheiro
ANTONIO CARLOS PINHEIRO MACHADO, engenheiro agrônomo por formação e vocação, já aos 7 anos de idade
(1942) apresentava os animais da GRANJA ZULEIKA (Triunfo/RS), na época de seu
pai, nas Exposição de Pelotas e, posteriormente, do Menino Deus.
Ainda jovem assumindo o
plantel da Granja Zuleika, mais tarde Antônio Carlos transferiu-se para
Avaré/SP, batizando seu novo estabelecimento de ESTÂNCIA NOVA QUERÊNCIA.
Em 2015 liquidando seu
famoso, e precioso, plantel da raça Jersey, até o final de sua vida Pinheiro
transmitiu-nos seus abalizados conhecimentos, suas inteligentes observações,
tendo sido o maior defensor das linhagens selecionadas nos EUA devido à sua
alta produção leiteira.
Vejam, a seguir, sua
história contada por êle numa entrevista com este autor no ano de 2010,
enriquecida com alguns artigos e comentários em jornais e revistas
especializadas na área rural:
"Na década de 1930 meu pai, o
engenheiro Heitor Ayres Pinheiro Machado, terminava seu trabalho de
acompanhamento técnico, pelo governo do estado do Rio Grande do Sul, à obra
executada pela empreiteira “Greenbil Field” na construção de estradas de ferro.
Primeiro colocado na sua turma, após a formatura foi agraciado com bolsas de
estudo em Alemanha, Bélgica e França, na área de curtição de couros.Entre
1935 e 1937, adquiriu 17 ha
no distrito Passo Raso, em Triunfo-RS, e do antigo Instituto de Zootecnia
comprou um touro jersey de nome SATURNO. Do tio Dulphe, Dona Zuleica (esposa de
Heitor) foi presenteada com uma vaca de nome CEREJA, também jersey, dando
início a esta notável criação gaúcha, batizando o estabelecimento como “Granja
Zuleika”.
Essas
novilhas foram os primeiros animais a atravessar o oceano no pós-guerra, sendo
uma delas LES ORNES RIGHT MODEST, por 6 vezes Grande Campeã nacional da raça.
No ano de 1957, com minha esposa Liliana, ao visitarmos a Ilha de Jersey fomos
recebidos na Cabanha Les Ornes pelo filho do criador dessa notável vaca.
Num
determinado momento necessitando de um touro, papai recebeu de D.QUINQUINHA DE
ASSIS BRASIL aquele de nome JUBILEU GLORIOSO, assim batizado porque a criação
de Assis Brasil estava completando 50 anos quando ele nasceu.
Embora
pressionado pela família a cursar engenharia, aproveitando livros e prestígio
de meu pai, decidi manter minha vocação e, ainda estudante de agronomia, recebi
de presente o rebanho Jersey de papai, desenvolvido com a utilização das
melhores técnicas de manejo e reprodução, firmando-se com destaque no Rio
Grande do Sul e no Brasil, participando e vencendo a maioria das exposições.
Por
meu amigo Otto de Mello, Diretor Rural da Associação Paulista de Criadores, fui apresentado
como expert em agropecuária ao médico Jamil Nicolau Naum, proprietário da
Indústria de Celulose CIMÃO, para o qual passei a trabalhar, inicialmente
levantando e inventariando os matos e florestas dessa empresa.
Já com meus quatro filhos,
falei por telefone ao dr.Jamil “que gostaria muito de transferir minha residência
para São Paulo”, obtendo dele a curta orientação: “pegue o primeiro avião, com
sua família, e venha trabalhar comigo”.
Dito e feito, os gaúchos
perderam para São Paulo um dos melhores plantéis registrados da raça Jersey
que, em Avaré, passou a ser denominado “Nova Querência”. Após sua mudança,
Antonio Carlos implantou as fazendas Grama Roxa (Avaré-SP) e Merendá
(Guararema-SP), para o Dr.Jamil, onde com satisfação dispendeu “muito sangue e
suor”. A primeira, com 87 ha
originalmente, hoje conta com 1500
ha e 27
km de margem de represas.
Da área inicial de 12
alqueires, as Jersey da Nova Querência invadiram São Paulo e o Brasil Central,
graças ao conhecimento, entusiasmo e relacionamentos desse orgulhoso gaúcho,
assim como a seu aguçado senso comercial. Por 7 vezes campeão nacional da raça
Jersey, sob julgamento de José Ronald Bertagnolli - seu particular amigo - uma
de suas vacas de maior destaque em produção, de nome FO IRENE (filha de
Opportunity), perdeu “indevidamente” o Grande Campeonato para uma de Suelly
Alves Nogueira, mas conquistou o primeiro lugar no concurso leiteiro com 72kg
de produção diária.
A fazenda Nova Querência foi
vendida “para gente muito rica e agradável”, hoje seus amigos, passando suas
Jersey para o Haras Liliana, também em Avaré, onde antes criava cavalos da raça
Crioula. Com muito orgulho conta que seus três filho, Antônio Carlos Junior,
Heitor e Leonardo, seguiram as lides rurais com muita competência, alguns netos
tambem herdando sua paixão rural.
Pinheiro trabalhou inicialmente
no SEAV do Ministério da Agricultura, como executor do acordo para a construção
da Escola Agrícola de Erexim. Mediante concurso público (3º lugar) ingressou
como zootecnista nos quadros do DPA, desempenhando funções na Estação
Experimental Zootécnica de Montenegro, posteriormente passando à chefia dos serviços de pecuária de leite e suinocultura.
Concluiu os cursos
intensivos de Forragicultura, Crédito Rural e Pecuária Leiteira. Em Tandil,
Argentina, capacitou-se em Programação da Investigação Zootécnica, em cursos
patrocinados pela OEA, com duração de 4 meses, contando com professores da Nova
Zelândia, Estados Unidos, México e Inglaterra.
Juiz nacional da raça
Jersey, atuou na quase totalidade dos estados brasileiros, assim como nas
exposições internacionais de Esteio, Palermo, Prado e Nova Zelândia, no Rio
Grande do Sul em Pelotas, Pedro Osório, Bagé, e outras. Em outras raças
leiteiras também teve atuação internacional. Conhece o jersey no Brasil,
Uruguai, Argentina, Canadá, Ilha de Jersey, Inglaterra, Estados Unidos, Nova
Zelândia e Austrália, onde participou
como criador e/ou convidado em grandes exposições da raça.
Membro do Colégio de Jurados
da ABCZ, da Associação Brasileira de Suinocultores, e de diversas raças eqüinas,
introduziu a raça ovina Hampshire Down em São Paulo. Como representante da
Secretaria da Agricultura participou dos trabalhos de criação da Cooperativa de
Lacticínios de Pelotas - COOLAPEL, entidade única no país ainda com recebimento
de leite Jersey superior a 70% do total, e que em fusão com outra importante
cooperativa local, a COOLACTI, formou a atual COSULATI - Cooperativa Sul-Riograndense
dos Produtores de Leite Ltda, também em Pelotas-RS.
O leiloeiro rural Antônio
Carlos estreou na empresa Programa, substituindo ao Trajano Silva (que havia
interrompido seus serviços para essa empresa), para a qual chegou a fazer 28
leilões. Em São Paulo
e noutros estados, incluido o Rio Grande do Sul, Pinheiro leiloou Jersey,
cavalos das raças Árabe e Crioula, e muitas outras raças bovinas e eqüinas.
Como leiloeiro e organizador de leilões de Jersey deu uma enorme contribuição
para o seu reconhecimento e difusão, impulsionando a raça nos anos 80 à
vanguarda em valorização e liqüidez dentre todas as leiteiras. Em 1962 recebeu
a 1ª nomeação como leiloeiro rural pela FARSUL, numa época de grande
quebradeira no Rio Grande do Sul, representando o Banco do Brasil na venda de
semoventes para pagar o financiamento de seus mutuários. Andou por todas as
colônias de Pelotas, quando conheceu o dr.Veloso (Velosinho), médico e grande
comerciante na região.
Foi 6 vezes Melhor Criador
Nacional da Raça Jersey, 6 vezes Melhor Expositor, vencedor como Criador e
Expositor do Ranking Nacional do Cinqüentenário (1988), detentor das 5 últimas
medalhas de ouro do estado de São Paulo atribuídas ao Melhor Criador e Melhor
Rebanho de Jersey, detendo 3 recordes nacionais de produção média de rebanho (6650 kg em 1991, 7100 kg em 1992, 7239 kg em 1993).
Nunca deixou de elogiar a
dedicação do zootecnista Flávio Abrantes que, por décadas, manteve organizada e
atuante a ACGJRS e seus criatórios, associação esta de que sempre se orgulhou
de ter participado de várias diretorias, e como técnico.
Sempre acompanhado de sua
simpática e bonita esposa, D.Liliana, nesta entrevista concedida ao autor deste blog, Carlos Guilherme Rheingantz, em agosto de 2010, Pinheiro disse-se “um homem realizado e
feliz, que deu muito duro em sua vida, e que adora seus filhos e netos”.
"E a
raça Jersey!!!"
Veja um resumo de sua atividade, de seu arquivo:



















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